terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Minha Vocação - Testemunho de Ir Maria de Guadalupe

          Agradeço a Deus, porque, mesmo não O conhecendo, trouxe-me pela mão, para a clausura do meu querido Mosteiro de Fortaleza, no dia 07 de abril de 1975. Nasci no interior de Aracati, depois vim para Fortaleza, com onze anos de idade. Com o passar dos anos, percebi em mim uma sede de algo, que o mundo nem as pessoas, tinham para oferecer-me. Já observava isso aos meus dezesseis anos. O desejo ia sempre aumentando e não conseguia encontrar o que queria. Eu era só cristã, porque era batizada; minha família também. Missa, oração, sacramentos, éramos zero. 

Não fui preparada para a primeira Eucaristia e continuei sem nenhum conhecimento, não entendia nada, só sabia que Jesus tinha morrido para nos salvar, que Nossa Senhora era a nossa mãe do céu e tinha aprendido a Ave Maria, com um tio meu, lá do interior. Penso que nem minha mãe sabia, pois nunca a vi rezar. Quando vi pela primeira vez uma imagem da Ssma. Virgem, tinha os meus dez ou onze anos e me senti muito atraída pela mãe do céu. Um dia queria comprar rapadura e não tinha o dinheiro completo. Minha mãe não tinha para completar a quantia das moedas e pela primeira vez pedi à mãe do céu que me ajudasse, que me fizesse sonhar com o animal que ia dar no jogo e passei a noite sonhando com uma música que falava sobre todos os animais, mas, entre eles, no jogo, só tinha o leão. Como não entendia bem, de manhã cedo fui perguntar à minha avó e ela me disse:minha filha, entre todos esses bichos que você sonhou, só tem no jogo, o leão; jogue no leão. 

Fiz o que a minha avó mandou e qual não foi minha surpresa e alegria, quando à tardinha o cambista veio me dizer que tinha dado o leão e trouxe-me o dinheiro exato para comprar minha rapadura. Nunca esqueci esse mimo da Mãe do céu. Ela olha sempre para as crianças, os pequeninos.Quando tinha sete ou oito anos, não recordo bem, uma senhora leu para várias crianças, os mandamentos de Deus. Não entendi nada. Ficou , porém, na minha mente,o primeiro mandamento:Amarás o Senhor, teu Deus... e fiquei perguntando-me o que era aquilo, amar a Deus de todo o coração, com toda a alma, com todas as forças. Aqui acolá, com o passar dos anos, vinha-me a interrogação e nunca perguntei a ninguém. Com os meus dezessete e dezoito anos, continuava com meu coração inquieto, à busca dos meus anseios. Pensava: minha vida não é para o matrimônio, pois um ser humano jamais satisfará os meus desejos. Minha sede e anseios eram de coisas eternas que eu mesma desconhecia. Nunca ouvira ninguém falar sobre essas sublimidades, mas ficavam pulsando dentro de mim, como uma força que me atraia. Procurei descobrir, pensando, refletindo, onde e como eu poderia viver dessa maneira, pois até então não conhecia quem vivesse ou tivesse essas idéias.Uma tarde, ia passando perto de uma Igreja e vi uma freira de hábito que ia entrando; assim que a vi, algo me despertou e como uma luz, mostrando-me o que eu devia ser. A luz e a clareza foram como um relâmpago. Não parei, não fui atrás, nem nunca soube que freira era. Foi a primeira e única vez que a vi. Já tinha por aí, meus 17 anos. Um belo dia inventei de dizer para minhas primas que queria ser freira e qual não foram as risadas, mangofas, desprezando meu sublime desejo. Daí em diante, aqui e acolá, riam de mim, dizendo: imagine, olhe a freira. É que eu tinha minhas danações normais de qualquer ser humano e que eram tão poucas... só que elas achavam que quem nasceu para ser freira, devia cair do céu já prontinha, toda santa. 

Procurei não falar mais nada, silenciar e me sair dessa idéia; só que não me dava muito bem nos escapes; o desejo aumentava sempre mais e a insatisfação das coisas do mundo era muito grande. Um outro desejo surgiu dentro de mim, que eu deveria fazer algo pela humanidade, não deveria viver para mim, mas para todos os meus irmãos. O que? Como? Já tinha meus 18 anos. À uma prima, casada, que eu queria muito bem, um dia falei pra ela que eu queria tanto ser uma freira! E pedi para ela dar um jeito. Passei um ano sem procura-la. Na casa da minha madrinha não existia nem imagem, nem crucifixo. Nunca tinha pegado num terço, pois nunca tinha visto ninguém rezar, mas creio que rezavam. Uma noite sonhei com Nossa Senhora, de joelhos, com um cálice numa mão, uma hóstia na outra, como que me oferecendo. Pelo que entendi, Ela me mandava participar do Sacramento da Eucaristia. Senti-me tão bem e acordei com uma paz muito grande. Mas, não liguei e não segui a luz que me foi dada e passou. Novamente em sonho, Nossa Senhora, de joelhos, mostrava-me um terço, como que me mandando rezar. 

Decidi falar com minha madrinha, mas, quem é que tinha terço? Ninguém, a não ser uma tia que só tinha um e não me emprestou de bom grado, pensando que eu ia quebrar o terço dela, mas, me ensinou a rezar. Duas semanas após me pediu o terço de volta, dizendo que rezasse nos dedos. Não consegui, pois mal sabia com o terço, imagine nos dedos e deixei de rezar. Após uns meses sonhei novamente com a mãe do céu, com um terço enorme, luminoso. A frente da Igreja estava repleta de pobres mendigos, eu estava entre eles, e a mãe do céu toda iluminada com o terço que tudo clareava, subindo entre as nuvens e mostrando-me o terço. Dentro da alma eu sentia como a me dizer: reze o terço, reze o terço. Nunca tinha escutado história de santo, nem de aparição. É, que Maria é a Estrela que nos guia até Jesus, a Estrela da evangelização, e eu não sabia. Chagaram as férias do colégio. Senti uma forte atração para ir à Igreja, e às tardes corria para lá. Foi então que o Crucificado me pegou! O Jesus do crucifixo me falou. Sem dizer uma palavra, fez-me entender, o que me era possível entender. Gostei e me deixei atrair pela sua linguagem e voltei várias vezes para O olhar e escutar. Ele era diferente das pessoas, assim o observei: manso, humilde, sutil, verdadeiro. Logo percebi: ah!, é este a que meu coração busca; Ele tem todas as características de tudo que minha alma anseia, Ele é tudo o que no mundo não posso encontrar. Ele é verdadeiro, não engana, respeita, inspira confiança. Nunca tinha lido a Sagrada Escritura, nunca tinha lido nada sobre Ele. Percebi tudo isso pela maneira de comunicar-se comigo. Não tinha nenhuma dúvida de que, é Este mesmo o que tem as coisas eternas, duradouras, para sempre. Nele encontrei tudo, porque Ele é o Tudo! Minhas primas começaram a caçoar dizendo: é, agora só vive na Igreja, etc...Chegou o ano de 1975, acabaram as férias e recomeçaram as aulas. 

Em março completava meus 19 anos e pensava como resolver minha vida.Numa inesquecível tarde, quando ia para o colégio, decidi passar pela casa de minha prima, a quem havia pedido ajuda na minha vocação. Quando entrei, ela nem me deixou falar, foi logo perguntando se eu ainda queria ser freira. Não foi brincadeira, senti naquela pergunta que ela me tinha o lugar certo. Era tanta alegria, que meu coração só faltava sair pela boca, pelo raio de esperança e ao mesmo tempo de certeza, que recebi. Ela começou a rir e disse-me: Menina, nem me deixaste dizer, espera, vou te contar como foi. Desde o ano passado, não sei nem se perdi o endereço que a irmã me deu, faz tanto tempo!Atalhei: não, Lourdes, não acredito que tens arranjado um convento para mim! Era inacreditável! Continuei: pelo amor de Deus, Lourdes, não venha me dizer que perdeu o papel do endereço... vamos procura-lo até encontrar. Quando cheguei no colégio não me contive e falei para as minhas companheiras que ia ser freira. Umas concordaram, acharam interessante, outras diziam: tu és louca, uma menina nova dessa, ser freira? E espalharam e todo o colégio ficou sabendo.Os meninos, quando eu passava diziam bem alto: meu Deus, isso é um pecado, uma menina dessa, tão novinha, zerinho, zerinho... É que na época havia a propaganda de um carro e o rapaz da propaganda mostrava todos os valores:beleza, vantagens do tipo do carro que era da última moda, e dizia: zerinho, zerinho..., queria dizer, novíssimo. Fazia de conta que nem escutava e minhas companheiras me cochichavam: estás escutando? e começavam a rir. N outro dia falei com minha madrinha. De manhã cedo, fui à casa de minha prima e disse: Lourdes, vamos logo atrás desse convento. Ela me falou:eu nunca andei por aqueles lados, não sei se vamos conseguir, não tenho a mínima idéia. Só se perguntar a alguém. Falei: é isso mesmo, vamos. Tivemos que apanhar dois ônibus, perguntamos e ninguém sabia informar. Andamos muito, já era tarde e ela tinha deixado duas crianças, estava preocupada e queria desistir. Falei: Lourdes, vamos em frente, talvez esteja tão perto! Interrogamos várias pessoas, por fim, chegamos no colégio das Dorotéias. 

Perguntamos à mestra das noviças se tinha algum convento ali por perto e ela interessou-se: venham ver minhas noviças, são muitas! Parece que estavam recreando, porque ouviam som, brincavam e cantavam. Ela me perguntou: você quer ficar aqui? Já encontrou o convento. Não senti nenhuma atração, apesar de não saber que existia variedades de congregações ou estilos de vida diferentes, nem que existia votos, não sabia nada, pensava que era tudo a mesma coisa. Lourdes me falou: se quiser ficar aqui... Olhei para ela e disse: Lourdes, não é aqui, eu quero o que você me falou. Ela insistiu: mas não encontramos, já é meio dia, está tarde. Ah! eu fiquei tão aflita! Insisti: vamos em frente, só um pouquinho. Lourdes perguntou à mestra de noviças: a senhora não conhece uma irmã Luce, que me deu este endereço? A mestra ficou assim... e insistimos: nessa rua não tem outro convento? Porque a rua do endereço é essa. A mestra ficou assim, mas falou: aí em frente tem um mosteiro. Quando ela disse isso, falei para Lourdes, vamos, vamos já encontrar. Ela estava tão cansada, mas me atendeu e andamos só mais dez minutos e vimos um portão e muros altos e o número exato do endereço. Quando cheguei, ainda do lado de fora, pinotei de alegria e dizia: Lourdes, é aqui, é aqui! Ela me perguntou: Como tu sabes que é aqui, se nunca viesses por aqui? Respondi: sei que é aqui! Quando ela tocou a sirene, veio uma moça atender. Impressionante! 

Quando coloquei o pé dentro do recinto externo do mosteiro, senti uma alegria tão grande, uma paz indizível! O silêncio como que confirmava, aqui é meu lugar, aqui é meu lugar e repetia, Lourdes, é aqui! A moça foi chamar a Madre. Tinha umas grades e umas cortinas, mas não pedi explicação de nada e falei que queria entrar logo. Ela disse que eu voltasse na outra semana para a comunidade me conhecer. Voltei na outra semana, vi a comunidade, achei lindo o santo hábito e foi combinado para eu entrar na outra semana. Ó insondáveis caminhos de Deus! Fiquei na portaria do mosteiro antes de entrar para o recinto interno da clausura, umas três semanas. Nesse ínterim, a madre sempre ia falar comigo, através das grades, perguntava-me se estava gostando, se estava feliz ou com saudades de casa e ofereceu-meu m Novo Testamento para ler. Nunca tinha pego num livro das Sagradas Escrituras e fiquei contente e curiosa para saber algo sobre Deus. A madre me disse que lesse o Evangelho de São João, que era muito bonito. Meu coração e meus olhos correram com muita avidez para a leitura, mas, qual não foi minha confusão e desilusão, pois não entendi nada. Quando ele começa a falar: no princípio era o Verbo e o Verbo era Deus e o Verbo se encarnou. Fala do Verbo encarnado, etc... Fiquei toda emaranhada, sem saber o que era aquilo. Tentei o máximo refletir, pensar, entender e cansei minha cabeça. Então consultei a gramática, comecei a conjugar o verbo encarnado e pensava: não existe esse verbo, não dava certo e me perguntava, o que tem a Palavra de Deus a ver, com gramática e com verbos? Ah! não vou ler mais isso, só fez confusão ma minha mente; e fiquei muito triste, pois queria tanto ler algo sobre Deus! Deixei o livrinho para lá e passou uma semana.

Quando a madre lembrou-se de perguntou se estava gostando do Evangelho, foi que falei para ela o que tinha acontecido e ela riu tanto da minha pobre ignorância. Depois, bondosamente começou a dar explicações e à luz do Bom e pacientíssimo Deus, foi clareando. Outra ignorância terrível, é que eu passava pelo sacrário e não fazia adoração, nem genuflexão; e uma irmã me falou: menina, tu és protestante?, Não se ajoelha diante de Nosso Senhor? E eu disse: que Nosso Senhor? Ela me replicou: mas você é muito ignorante mesmo. E perguntei à Irmã: O que é que tem nessa casinha? Ela me disse: menina, é Nosso Senhor Sacramentado, Jesus está aí! Não entendi, mas acreditei. Vejo minha vocação como um verdadeiro milagre do amor de Deus. Humanamente falando, não havia possibilidade. Mas, os olhos do Senhor estavam sobre mim e aquilo que me era impossível, Ele mesmo o fez, vendo-me incapaz de encontrá-LO. Teve a bondade e o carinho, trazendo-me pela mão, para que ficasse com Ele neste lugar onde enclausurei-me, como num jardim lacrado. Sou feliz, tenho Aquele que tanto desejei. Ele me criou, me preservou, me escolheu e me reservou a melhor parte: conviver com Ele já neste mundo, como sinal e prelúdio do convívio eterno.



Ir Maria de Guadalupe do Menino Deus OIC
Mosteiro da Imaculada Conceição e São José – Fortaleza/Ceará.

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